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A Neta da Luísa

A Neta da Luísa chama-se Bárbara. Tem 23 anos e um gosto incalculável pela escrita, moda, lifestyle e beleza. Não é uma expert em nenhum dos assuntos, mas tem uma paixão imensa por todos eles.

A Neta da Luísa

Amélie - uma cadela que podia ser a nossa.

Precisei de algum tempo para digerir esta notícia: pouco tempo para controlar a revolta que sinto e demasiado tempo para demonstrar a minha indignação. Devo desde já dizer que este não é um texto de palavras bonitas ou preocupações literárias. É um grito do coração, um desabafo de mágoa, angústia e revolta. É resultado de uma tempestade interior, de uma incredulidade tremenda.

 

Hoje foi mais um dia triste. Despedi-me da minha Amélie, mais de uma semana depois de um imenso sofrimento.
Estou numa dor inexplicável por palavras, que aguardo que o tempo acalme, apesar de neste momento isso não me parecer possível.
A minha Amelie era tão alegre, tão cheia de vida, feliz e saudável. Adorava rodopiar sobre si própria logo pela manhã, como se estivesse a dançar, a celebrar a vida. Adorava que eu lhe dissesse que era linda: "quem é a mais linda do meu coração"?. E eu dizia-lhe tantas e tantas vezes.
No dia 1 de abril, deixei a minha princesa no Hospital Veterinário Vasco da Gama, na zona norte da Expo, para fazer uma destartarização, uma comum limpeza dos dentes. Antes de ser intervencionada, ela tinha feito análises na mesma clinica e foi-me dito pela veterinária que a Amélie estava óptima de saúde. Não era surpresa para mim, a Amélie era muito bem cuidada. Depois de a entregar à veterinária Susana Vitor, que fez a intervenção, saí descansada da clínica. O primeiro momento em que fiquei apreensiva foi quando adiaram das 17 para as 19 a hora de a ir buscar. A esta hora, quando me deram a Amélie, vi logo que ela estava em sofrimento, com dificuldade em respirar. Foi-me dito que era normal e que os sons aflitivos seriam devido a um tudo que lhe tinham enfiado pela garganta. Questionei se não deveria ficar em observação , foi-me dito que não era necessário! Achei estranho mas acreditei, não tinha razão para não acreditar, afinal ela é que era a veterinária.
Levei a Amélie para casa muito angustiada com o estado em que a via. Em casa, a aflição da Amélie em respirar continuava. Deitei-me ao seu lado a dar muitas festivas e beijinhos e a conversar com ela, dizendo que ia ficar tudo bem: " vai passar meu amor, agora custa um bocadinho mas vai passar".
Passado duas horas e meia, a Amélie estava exactamente igual, o mesmo sofrimento e os mesmo sons (horríveis) a tentar respirar.
Aflita, liguei para o hospital e falei com a veterinária que a tinha tratado e voltei a repetir o estado de sofrimento da Amélie. Coloquei o telefone em alta voz para que a dr.ª Suana Vitor pudesse ouvir. De novo me foi dito que era tudo normal e que eu não devia fazer nada. Insisti que era melhor verem de novo a Amélie no hospital mas a médica , sorrindo do outro lado da linha, disse que me acalmasse, que não era preciso levá-la ao Hospital, tudo era normal - naquela atura só queria aliviar o sofrimento dela que eu pensava ser das dores na garganta provocadas pelo tubo, nunca me passou pela cabeça que a Amélie estivesse a correr perigo de vida. Eu acreditei na veterinária, aceitei de boa-fé as indicações da médica. A sua descontração ao telefone era tanta que até pensei que era eu que estava a exagerar de tão zelosa que era com a minha menina.
A Amélie não dormiu um minuto sequer e o seu estado de sofrimento manteve-se sempre igual, desde que saiu da clínica. Com o avançar da madrugada e cada vez mais angustiada voltei a ligar para o hospital. Era já outro médico de serviço, descrevi tudo o que tinha antes descrito à dr.ª Susana Vítor e pedi ajuda. Este veterinário disse-me para ir de imediato para o hospital. A minha Amélie percebia tudo, nesse momento, encostou-se a mim a pedir-me mimo, deu-me um ultimo beijo, o único da noite, não por falta de vontade mas porque provavelmente as dores não lhe permitiam.
Eu abracei-a e prometi que tudo ia ficar bem, que íamos ao hospital e que ela ia ficar bem. Quando nos estávamos a preparar para sair, a Amélie foi beber um pouco de água e, de repente, em segundos, e sem que nada fizesse prever este desfecho, caiu para o lado no chão da cozinha, a deitar muito sangue pela boca. Entrei em pânico, agarrei nela e fui para o hospital. Já aqui, onde ainda entrou a respirar, o médico que me tinha atendido o telefone diz-me pouco depois que a tentou reanimar mas não conseguiu. Fiquei sem chão, meu mundo desabou, deixei de ver e de ouvir. Nas seis horas que se seguiram não sai da clinica a pedir para falar com alguém. Precisava de uma explicação. Pedi para falar com o director, disseram-me que estava a passar o fim de semana fora de lisboa. Pedi para falar com a veterinária que lhe fez a intervenção, disseram-me que ela não trabalhava ao fim de semana.
E eu fiquei ali perdida, horas, sem saber o que fazer, sem chão...
Seis horas depois, já com a ajuda da minha família, decidi tirar a minha Amélie da clínica, onde senti que não nos estavam a tratar com dignidade. Tenho o coração partido e continuo sem saber o que aconteceu. Até hoje não recebi nenhum contacto, nem do administrador da clínica, Bruno Oliveira, nem da veterinária. Eu só queria perceber porque e como é que a minha Amélie entrou saudável para fazer uma limpeza aos dentes e acabou por morrer. Para mim, os animais são e devem ser tratados com respeito e dignidade. São, e a Amélie era, um membro da família.
A Amélie era a minha menina...E por ela e por todos os animais que por vezes são tratados de uma maneira menos digna espero fazer justiça.

Meu amor, vai em paz. Dá-me forças para viver sem o teu amor incondicional, sem te ter mais na minha vida.
Obrigada por me teres feito tão feliz.

- Maria João Bastos

 

Consegui, com este comunicado, sentir a dor da Maria João Bastos – talvez por partilhar com ela o amor imenso que tenho pelo meu cão – aliás, pelos meus animais no geral.

Isto só comprova o quanto o nosso instinto raramente nos engana e quase, quase sempre, se tivermos o apoio das entidades competentes, nos pode levar ao caminho certo.

 

Para mim animais são pessoas. Aliás, há animais melhores que muitas pessoas e, quem um dia determinou que nós devíamos ser superiores a eles não conhece os animais que eu conheço e, acima de tudo, não conhece certas pessoas que eu conheço ou conheci em alguma fase da minha vida.

 

Amo os meus animais como amo a minha família - com um amor que as palavras não conseguem descrever, que os atos não conseguem mostrar, que o coração não se cansa de sentir. O meu cão é um companheiro  incrível e talvez por isso não consigo imaginar-me na posição desta conhecida atriz portuguesa - acho que nenhum discernimento ou controlo conseguiria parar o meu desespero e sentimento de injustiça. Nenhuma educação seria capaz de me deter. Nenhuma racionalidade nos pode calar quando o que sentimos nos grita ao ouvido.

 

À veterinária que tratou da Amélie, só tenho a dizer: desista, Sr.ª Doutora. Desista de trabalhar pelo dinheiro, porque o coração, já se viu, não é o seu guia. Desista de acreditar nas suas certezas e passe a aceitar mais os pressentimentos dos donos, mas, acima de tudo, dos amigos. Desista de estar numa profissão que certamente não lhe compete, não se adequa. Desista de fazer um trabalho que não sabe dignificar e de lidar com animais a quem não consegue dar mais do que tratamentos - não consegue dar amor, cuidado, protecção. Todos nós erramos. Os médicos erram. Os veterinários também têm esse direito - só não têm o direito de se manterem passivos perante o erro e insensíveis perante a preocupação de uma dona que ama o seu cão e de uma mulher que se preocupa com o seu companheiro fiel. Erros todos cometem, mas todos temos o dever de fazer por os corrigir ou, pelo menos, por minimizá-los. Você, Sr.ª Doutora, não o quis corrigir, não quis sequer tentar. Desvalorizou o pedido de socorro sincero e real , que certamente estava mais correto que as matérias de anatomia e medicina animal decoradas que guarda no seu reportório mental. Desvalorizou a ligação e os laços firmes que ali existiam e que, certamente, você nunca conheceu ou sentiu. Nunca experienciou. Não sabe sequer o que são.

 

Mas eu sei, Sr.ª Doutora, e talvez por isso a sua falsa certeza me revolte tanto. Porque independentemente da confiança que temos nas nossas capacidades e no nosso trabalho, devemos acreditar também que podemos falhar. É da nossa natureza falhar. Mas podemos reparar determinadas falhas. Falhas essas que você não quis superar.

 

E agora? A sua consciência pesa menos do que a que deve pesar a um médico que negligencia o seu doente e o faz perder a vida?

Se bem que aqui há uma diferença - não havia doente. Havia um animal saudável que você fez questão de deixar morrer.

 

Só gostava de saber se alguma parte de si morreu também.

 

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