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A Neta da Luísa

A Neta da Luísa chama-se Bárbara. Tem 23 anos e um gosto incalculável pela escrita, moda, lifestyle e beleza. Não é uma expert em nenhum dos assuntos, mas tem uma paixão imensa por todos eles.

A Neta da Luísa

Ansiedade: um testemunho na primeira pessoa

Olá, L.!

Antes de mais, obrigada por aceitares responder a estas questões, principalmente tratando-se de um tema tão sensível mas, também, cada vez mais comum. A ansiedade é um problema que afeta uma grandes percentagens de pessoas e os estudantes são, muitas vezes, confrontados com situações de stress intenso e momentos ansiosos de grande gravidade, que por vezes chegam até a limitar as tarefas mais comuns do dia-a-dia. Sei que a tua vida enquanto estudante já te pregou rasteiras destas e é por querer conhecer melhor o problema e, quem sabe, ajudar jovens que se revejam em ti, que te convidei a responder às seguintes questões.

 

1 – Para começar, podes dizer-me quando e como te apercebeste que a ansiedade poderia ser um problema que estava a entrar na tua vida?

A ansiedade esteve desde sempre presente na minha vida, ficava ansiosa antes de testes importantes, no início de cada ano letivo, etc… Desde cedo percebi que ela limitava a minha vida e muitas vezes a prejudicava, por exemplo, nos testes.

 Infelizmente tenho antecedentes na minha família, a minha mãe tem uma depressão há imensos anos e desde cedo tive de aprender a lidar e a conviver com isso. No entanto, na minha vida e enqaunto problema mais grave, a ansiedade começou por se manifestar há cerca de 1 ano, quando a minha mãe passou por mais uma fase de depressão - nesse momento eu “explodi”: comecei a andar constantemente com dores no corpo, como se tivesse levado uma pancada e durante o trabalho de part-time que tinha na altura começou a manifestar-se em pequenas coisas: tonturas, coração acelerado e respiração ofegante, sem que eu conseguisse controlar.

 

2 – O que foi feito para chegares ao diagnóstico “oficial”?

Depois de todos os sintomas que enunciei na resposta anterior decidi ir ao hospital e foi aí que me foram diagnosticadas as crises de ansiedade. Na altura, fui mandada para a psiquiatria. Foi horrível! Porquê? Porque tinha o maior exemplo em casa de como “não querer ser” e afinal… também eu tinha problemas depressivos!

 

3 – No teu dia-a-dia, como é que o transtorno de ansiedade se manifesta?

Eu penso muito nas coisas antes de elas acontecerem, é esse o meu problema. Sou muito perfecionista. Por exemplo nos estudos fico ansiosa e nervosa por algum trabalho que tenho de fazer. Começo a pensar “E se não corre bem? Será que tenho bibliografia suficiente ou é melhor pesquisar mais? Acho que isto não ficou bem escrito, é melhor rever…”. No que dá? Stress, stress. Conclusão: fico bloqueada.

 

4 – Quais são os sintomas mais comuns?

Existem casos e casos. No meu caso a ansiedade manifesta-se no corpo, com dores constantes; a respiração ofegante, que me deixa sem fala e sem controlo de mim mesma e ainda o coração acelerado, como se quisesse sair fora do peito. No final fico com uma dor e um aperto imenso.

 

5 – Tens algumas técnicas pessoais para exerceres um melhor controlo sobre este problema? De que forma te tentas acalmar durante as fases de maior ansiedade?

Desde que me foram diagnosticadas as crises de ansiedade decidi, por vontade própria, procurar a psicóloga da faculdade em que estudo. Desta forma comecei a ter, frequentemente, sessões que me ajudaram a “controlar” a ansiedade, pequenos truques, como lhes chamamos: conseguir controlar a respiração através de nós próprios sem necessidade de medicamentos e apertar bem as nossas mãos, canalizando a nossa força para lá. Às vezes jogo futebol com um grupo de amigas e, desta forma, abstraio-me e estou em contacto com a natureza, o que me faz bem. Quando estes truques não resultam, muitas vezes tomo água com açúcar ou tomo a medicação SOS, de forma a acalmar-me.

 

6 – Aqueles que te são mais próximos e convivem contigo diariamente compreendem o teu problema? Têm alguma postura especial face ao mesmo, principalmente nas alturas de crises mais frequentes?

Acho que para os meus pais passa ao lado, confesso. Não por não se preocuparem comigo, mas por já estarem tão habituados a estas situações - a minha mãe por ter problemas idênticos e o meu pai por, desde sempre lidar, com eles. Por incrível que pareça, nunca me deu uma crise grave estando com os meus pais, apenas uma ansiedade maior e, quando isso acontece, a minha mãe vai logo buscar o medicamento que me receitaram no hospital.

As crises que considero de maior gravidade aconteceram com a minha melhor amiga e o meu namorado, eles ficaram aflitos! Nessas situações, o que eles fizeram? Deram-me um copo de água com açúcar, palavras de apoio e um abraço. Confesso que há coisas que um medicamento não traz e esta é uma delas: o afeto!

 

7 – Qual achas que é a área da tua vida que mais é afetada com o transtorno de ansiedade (o sono, a alimentação, a convivência com os pares, o humor…) ?

Desde que convivo com este “monstro” tenho imenso sono e o humor varia, assim como a vontade de comer. Se há dias em que ando mais ansiosa e preocupada com algo perco a fome. Tenho dias em que sinto uma tristeza profunda, um vazio enorme no peito, sem motivo válido. Apenas o sinto e só me apetece chorar. Nesses dias, por mais que tente explicar às pessoas o que tenho, elas não entendem o porquê de estar assim.

 

8 – A ansiedade afeta-te a outros níveis, para além dos estudos? Influencia por exemplo as tuas relações, a vontade de saíres, de trabalhares… ?

Sim, sem dúvida. Muitas vezes não tenho vontade de sair com os meus amigos e sei o quão importante isso é para me ajudar nesta fase. Não me consigo concentrar no trabalho que tenho em mãos e para o meu namorado, estou sempre triste e constantemente a chorar.

 

9 – Sentes que, em determinados momentos, a ansiedade te prejudica (ao nível das notas, do falar em público, etc)?

Senti mais isso quando ainda andava no ciclo. Agora que já aprendi truques e que já possuo outra maturidade, acho que a consigo controlar de forma a que os estudos não saiam prejudicados. Nos dias em que estou mais em baixo, prefiro não falar com as outras pessoas, prefiro ficar no meu canto.

 

10 – Por último, que conselhos achas importante dar a pessoas e, principalmente, jovens estudantes que sofram deste distúrbio?

A escrita sempre foi o meu grande refúgio, para tudo. E para falar das minhas coisas, do meu mundo. Sempre achei que através da escrita me expressava melhor. Mas confesso que custou responder a estas questões, nem sei muito bem que conselhos dar aos que estão a passar pela mesma situação. É difícil saberes que o problema que mais abominavas, por conviveres anos e anos com ele ao teu lado, agora também é o teu! Eu sei, sei que só a deixamos entrar se quisermos, que temos de ser fortes e conseguir… Mas não é assim tão fácil como se diz! É importantíssimo ter o apoio das pessoas que gostas e também a sua compreensão para algumas situações, como as mudanças de humor e os dias em que nos encontramos mais frágeis e vulneráveis. Acho que é o essencial. De resto, é importante canalizarmos as nossas energias em atividades desportivas que gostamos, não só pela energia, mas também pelo convívio e amizades que fazemos. E quando temos uma crise, importa ser mais forte que a ansiedade e controlar. Recorrer a medicamentos tão jovens não é bom, eu própria tento evitar! Confesso que ainda sei pouco do assunto e também não conheço pessoas que tenham o mesmo problema, não sei se existe algures por aí. Tenho pesquisado na internet mas sem sucesso, mas era crucial para todos os que sofrem deste transtorno existir um grupo físico que nos pudesse juntar, pelo menos, um dia por semana e onde pudessemos contar as nossas experiências.

 

 

Este é um caso real. Não e uma história romântica resultado da minha escrita. É um testemunho doloroso e sincero de alguém que já faz da ansiedade uma companheira de vida – embora traidora.

Pela disponibilidade e sinceridade, colaboração e amizade, um obrigada muito especial a ti, querida "entrevistada".

 

Se já passaste pelo mesmo, se tens um testemunho a dar, se tens conselhos que possam ser partilhados ou técnicas que achas úteis para lidar com estas situações, comenta ou envia e-mail para anetadaluisablo@gmail.com.