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A Neta da Luísa

A Neta da Luísa chama-se Bárbara. Tem 23 anos e um gosto incalculável pela escrita, moda, lifestyle e beleza. Não é uma expert em nenhum dos assuntos, mas tem uma paixão imensa por todos eles.

A Neta da Luísa

Hoje pelos outros, amanhã pelos nossos.

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Quinta feira, 19 de Novembro de 2015

 

Saio de casa, como todos os dias, pelas 8h20 da manhã. O estágio espera-me. Prendo o cão, tiro o carro, solto o animal e entro no automóvel para seguir caminho. Vejo um senhor de idade acabado de cair do outro lado da estrada. Corro em seu auxílio e deparo-me com um homem perto dos seus 80 anos, incapaz de se levantar. As mãos estão feridas e queixa-se com dores nos joelhos. Pára um carro, transportando um casal, que me ajuda a levantar o senhor. Coloco-o no carro e, sem pensar duas vezes, levo-o ao centro de saúde, apesar dele me parecer mais magoado na alma que no corpo. No caminho, pergunto-lhe se costuma andar sempre sozinho: responde-me que sim, que todos os dias vai a pé para a fisioterapia (uma distância bastante considerável para seres humanos tão frágeis e doentes). Pergunto-lhe se não tem esposa, diz-me que sim. Questiono a existência de filhos: começa a chorar – o seu rapaz morrera há pucos meses. Choro também, não por fora, mas por dentro. Apeteceu-me abraçá-lo e não o deixar mais sozinho. Pensei nos meus avós. Se fossem os meus avós... Se fossem os meus avós também gostava que uma rapariga, num dia de manhã, mesmo estando atrasada para o trabalho, os acudisse se caíssem à beira da estrada. Também agradecia que os levassem ao médico e se certificassem que estavam bem entregues. Foi isto que fiz. Levei-o ao centro de saúde - encaminharam-no para o curativo. Disseram-me que ficaria bem entregue e encarregar-se-iam de o fazer chegar a casa em boas mãos. Atrasada para o trabalho voltei para o carro e não consegui arrancar. Chorei – e muito. Não por pena, mas por vontade de fazer mais. E por ter noção que há muitos mais idosos neste mundo que, mesmo não estando sozinhos, estão bastante sós... ou se sentem bastante sós. Voltei lá dentro e perguntei pelo senhor. Deixaram-me vê-lo – ia ser suturado no joelho. Ofereci-me para aguardar, para o levar a casa. Não ficaria sossegada indo embora sem saber o seu destino. Uma senhora, minha vizinha, que estava à espera de consulta, ofereceu-se para lhe dar boleia. Disse-me que ficasse sossegada, para ir trabalhar tranquila. Assim fiz – fui, mas não tranquila. Na minha hora de almoço, depois de ter perguntado onde vivia, fui visitá-lo. Vi-o almoçar, tranquilo, no calor da sua casa e no aconchego da sua esposa – aí sim, o meu coração acalmou. A minha missão estava cumprida…

 

… Mas esta situação fez-me perceber que ainda há tanto por fazer. Não pelo senhor, mas por todos os senhores que andam por aí, todos os dias, de alma ferida e coração suturado, magoados pelas amarguras da vida e doentes de amor. Por todos aqueles que sós, lutam por viver os seus últimos anos, meses, semanas, dias com normalidade, mesmo conscientes que parte deles já partiu com alguém que amavam e a outra parte apenas luta para sobreviver enquanto Deus não os fizer voltar ao abraço daqueles que realmente desejam.

 

Hoje pela família dos outros, um dia pela nossa.

Hoje por eles, amanhã por nós.